JotaPê questiona “Onde Nasce Um Vilão” em seu novo álbum

Onde nasce um vilão? A pergunta que dá nome ao segundo álbum de JotaPê atravessa todo o disco como conceito, provocação e narrativa. Natural de Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador (BA), o rapper independente apresenta em “Onde Nasce Um Vilão (ONUV)” um trabalho autoral que parte de vivências pessoais, observações sociais e conflitos internos. Muitas vezes, o “vilão” é uma construção social antes de ser uma escolha individual. Para JotaPê, o vilão raramente é universal, depende do ponto de vista. “Por exemplo, para uma parcela da sociedade a polícia é herói, para outra não”, reflete o artista, ampliando o debate que atravessa o disco.

A ideia do disco surge a partir da inspiração no filme Coringa (2019), que propõe um olhar aprofundado sobre a origem de um personagem tradicionalmente visto apenas como antagonista. A partir dessa reflexão, JotaPê passa a questionar: em que momento alguém deixa de ser apenas um sobrevivente e passa a ser visto como vilão? O disco não busca respostas concretas, mas constrói um mosaico de sentimentos, desabafos e situações que tenciona o ouvinte a pensar nesse rótulo. 

Em 12 faixas, JotaPê escreve sobre frustrações, ambições, perdas, preconceitos, cobranças externas e internas. Suas rimas são diretas e inteligentes, retratando um pouco do que o artista vive e do que vê ao seu redor. Isso pode ser ouvido em faixas como “As Ruas” que diz “Viver é mais que ver / Mas vi que tudo que é vivido / Demora para se perder / Crescer é conceber / Contradizer, compreender / Que sou humano e posso errar também”. Musicalmente, ONUV transita pelo rap, trap e influências da música urbana contemporânea. A curadoria de beats e parcerias reforça a diversidade sonora do projeto, sem perder a coesão conceitual. 

As participações reforçam o diálogo com a cena urbana da Bahia: um dos pioneiros do trap no estado, Makonnen Tafari participa da segunda faixa do disco, “Mais Uma Ligação” na composição e interpretação. O artista iniciou sua trajetória ainda na infância e acumula mais de 15 anos de carreira, já tendo dividido o palco com artistas de peso como Flora Matos e Karol Conká.

Uma das músicas mais dançantes do álbum,“Ela Balança o Bumbum”, tem participação do rapper Luky 94. Soteropolitano criado em Lauro de Freitas, o artista iniciou sua caminhada musical com um home studio improvisado e, de forma autodidata, consolidou-se como produtor, cantor, facilitador e articulador da cena independente local. 

A faixa-título do disco conta com M.IV na voz e composição. Com versos como “Várias noite mal dormida / Pensamento à milhão / Pensando em parar com a rima / Ansioso por milhão / Muito gasto sem retorno / Tempo, cifra e cifrão / Encurralado sem saída / Onde nasce um vilão” é possível entender a mensagem do disco. A presença do baiano M.IV eleva ainda mais a faixa, o artista encontrou na poesia de rua e na composição sua forma de expressão, tornando-se um dos nomes promissores do hip-hop baiano contemporâneo.

EH DIFERENTEH” é a penúltima faixa do disco e tem participação de MC Zidane, rapper de Lauro de Freitas conhecido por sua versatilidade e habilidade de misturar estilos musicais, como rap, trap e arrocha. Ao reunir esses artistas, JotaPê não só amplia o alcance sonoro do álbum, como também fortalece uma rede criativa que representa a força do rap underground de Lauro de Freitas e região.

O álbum conta com uma equipe formada majoritariamente por artistas e produtores independentes, reforçando o caráter autoral e coletivo do projeto. JotaPê assina a composição da maioria das faixas e participa ativamente do processo criativo. A produção musical passa por nomes como Queryno, amigo de infância do artista e parceiro criativo desde os primeiros passos; Aka Nabs, produtor atuante na cena contemporânea; e os renomados Dactes e Nobre Beats, referências reconhecidas no meio do rap. A captação e finalização envolvem estúdios e profissionais como BECO RECORDS, DV REC, AUT e Casa1 Estúdios.

Mais que um disco, “Onde Nasce Um Vilão” é um grito consciente. A ideia de “vilão” aparece como dicotomia ao longo do disco, como no interlúdio que diz “a sede e o medo de ser campeão”. Ou seja, as músicas expõem contradições e convidam à reflexão. No fim, a provocação que fica é que o vilão depende do olhar. E como resume JotaPê, em uma frase que resume o espírito do álbum, sem herói não há vilão.

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