“Prensado”: onde música e literatura se fundem

Entre todas as colunas que já publiquei por aqui, certamente a de hoje pode ser classificada como a mais desafiadora. E o desafio consiste em conseguir criar um arco narrativo com início, meio e fim a partir de um disco que foge de todos os arcos narrativos padrões e lógicos que estamos acostumados a consumir em trabalhos musicais.

Em seus mais de 60 minutos, “Prensado”, quarto disco lançado pelo projeto Gloios, consegue levar o ouvinte por uma jornada que, ao final, transforma completamente a maneira como cada um vê e percebe a si mesmo. 

Nos próximos parágrafos, tento contar um pouco como esse caminho foi percorrido por mim.

Sobre o projeto Gloios

Antes de destrinchar os aspectos que tornam o disco único, preciso dar o devido destaque e valorização da autoria de todo esse conceito: Rafael Xavier.

Meu primeiro contato com o trabalho de Rafael foi em 2022, no segundo ano de existência do Seu Próximo Álbum. Na época, o foco do perfil era divulgar e produzir conteúdo mais “editorial” sobre artistas e bandas independentes que chamavam a minha atenção. 

Aos 26 anos, Rafael, nascido no Grajaú, extremo sul de São Paulo, carrega a composição como parte essencial de sua trajetória desde os 15.

A Gloios despertou meu interesse justamente pelo aspecto mais “cru” que trazia, seja na sonoridade quanto na proposta de produção. Desde 2019, quando lançou seu primeiro álbum (Lide), o projeto tem uma abordagem de construção caseira. Segundo Rafael, flertava no início com a ideia de construir uma proposta puxada para o bedroom pop.

“Como eu não tinha condição alguma, precisava começar de algum lugar. Queria colocar a mão na massa para entender o processo”, afirmou o artista na época.

A descrição que o próprio deu sobre a sonoridade do seu trabalho ainda corresponde a sensação de quem ouve. Em 2022, ele nos disse que produz “meio que no tato”, aceitando suas falhas e sem o objetivo de fazer algo super elaborado. Talvez esse “descompromisso” de cumprir com a expectativa de entregar um trabalho revolucionário seja o que resulte em um trabalho que é, de fato, grandioso.

Sobre “Prensado”

No início deste texto, citei “Prensado” como um disco. Mas esse trabalho vai muito além de apenas um disco. 

“Prensado” é a trilha sonora de si mesmo. A ilustração exata em forma de música de uma narrativa surrealista. E a narrativa é a materialização perfeita do som em palavras. 

O disco foi lançado oficialmente no dia 5 de fevereiro de 2026, e conta com 10 faixas (01h 09m 33s)

Em outras palavras, estou falando aqui de um projeto que existe em duas frentes: álbum e texto. Um álbum experimental na essência, com faixas longas e surpreendentes construções harmônicas e arranjos que te deixam boquiaberto. E, simultaneamente, um conto com influências do existencialismo e surrealismo brasileiro.

O cerne temático do projeto gira em torno de temas como: vergonha, morte, o ar sujo de uma metrópole, ansiedade e opressão, conforme explicou Rafael Xavier em um texto escrito em seu perfil na plataforma Substack.

“Os acontecimentos que conduzem o conto e o álbum são uma bola de neve de sequências surreais que fazem pensar “que situação”. Porém, nada é tão solto. Existe um fio condutor que costura os sons e as palavras para dar sentido ao que criei. Tudo aqui tem a intenção de gritar angústias dos temas centrais que já mencionei”.

Só por essa breve descrição imagino que você deve estar, no mínimo, intrigado pelos efeitos de ter contato com uma obra dessa tamanha complexidade. Quando comecei a apuração para a construção dessa resenha, tinha uma expectativa do que iria encontrar, já que já conhecia o trabalho da Gloios, mas “Prensado” conseguiu extrapolar o território que tinha em mente.

Meu primeiro contato com o projeto foi apenas com o disco. Experiência que já foi impactante por si só. O álbum me fez ficar imersa em meus próprios pensamentos – alguns que nem entendia muito bem o que significava. 

Mesmo sem ter ainda lido o conto, terminei a audição do disco com essa sensação: é como se, a cada faixa, você estivesse recebendo mais pressão do ambiente, quase sendo tomado/esmagado por ele. Mas, ao mesmo tempo, passa a resistir cada vez menos, se misturando de forma quase imperceptível aos elementos à sua volta. Isso para mim ficou bem visível em Inexistente e Romanos. A música termina quase que com um gosto “agridoce”.

Ao final do disco, não consegui afirmar qual faixa é mais “surpreendente” do que outra. Todas possuem sua dose de inesperado. Todas me impactaram de formas inesperadas. Mas, mesmo assim, a última canção, me trouxe uma emoção muito íntima. Me fez lembrar da infância, das tardes na casa da minha avó, com cheiro de bolo assando e televisão ligada em algum programa popular.

E, então, parti para a leitura do conto. E tudo se amarrou de uma forma sem igual.

O enredo gira em torno de um acontecimento fantástico: um homem esmagado pelo próprio apartamento. De maneira figurativa, esse esmagamento e entrelaçamento de matéria fica nítido no estilo de escrita, escolha de palavras, narrativa e, principalmente, sonoridade.

Já disse isso em outras colunas por aqui, mas não canso de repetir quantas vezes forem precisas. É extremamente satisfatório ter contato com o trabalho de artistas que, ao longo do processo criativo e de produção, se atentam aos mínimos detalhes.

Ao decorrer do conto, você vai tendo contato com a ordem do disco. E, obviamente, a experiência de leitura é potencializada pela atmosfera que as canções conseguem criar. Cada música consegue traduzir muito bem o desenrolar do pensamento do protagonista.

Fazendo jus ao que “Prensado” evoca no leitor-ouvinte, finalizo essa coluna com a certeza e felicidade de poder ver materializado um trabalho que evidencia a grande potência que a cena independente carrega. Uma potência de ser, mais do que nunca, arte em sua essência.

Para ler o conto, clique aqui. E, para potencializar a experiência, ouça o disco também.

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