Banda Crise transforma angústia geracional em um disco que ecoa por dentro

Quando decidi qual seria o disco que iria estampar a coluna de hoje, achava que o trabalho seria, além de prazeroso, fluido e mais “fácil”. Dessa vez, seria diferente pois já conversei com a banda, acompanho o trabalho deles, vibro por cada conquista…. mas a realidade foi outra.

Aparentemente, é BEM mais difícil construir uma análise, tecer uma opinião por um artista que já ocupa um lugar diferente dentro de você. E nem é pelo receio de parecer tendenciosa, mas pela dificuldade de conseguir encontrar palavras suficientemente justas que demonstrem o que foi sentido durante a audição do trabalho.

Bom, com as devidas justificativas, vamos partir para essa coluna que, para mim, foi uma conquista.

Sobre a Crise

Crise é o nome do projeto criado em 2020 pela artista visual Cristine Siqueira em parceria com o baixista e produtor Gabriel Pasin

Nos primeiros anos, a sonoridade girava em torno de elementos característicos do folk, lo-fi e rock alternativo. As composições refletiam muito da incerteza e solidão que os tempos pandêmicos trouxeram. Isso fica bem claro no primeiro EP, “O Fel dos Dias”.

O EP foi lançado em 9 de dezembro de 2020, e conta com quatro faixas.

A partir de 2024, junto com a presença expandida na cena independente do interior paulista, vieram novos membros: Raphael Resta (guitarra), Caio Lobo (bateria) e Enzo Mori (teclados e percussão).

O som passou a ter mais complexidade, mais camadas e texturas que uma banda é capaz de ter. De folk e lo-fi com aspecto, chegaram a guitarra distorcida e letras mais fortes. 

A formação atual da banda. Da esquerda para direita: Raphael, Caio, Gabriel, Enzo e Cristine.

Entre inúmeras crises e questionamentos, o primeiro disco de estúdio do grupo chega para traduzir em som um sentimento que vai muito além do universo que a banda vivencia. É papo de crise geracional.  

Sobre o álbum

“por favor, me perdoe. as más notícias finalmente chegaram”. Uma frase que facilmente ecoa na mente de pessoas que estão nos seus 20 e 30 e poucos. Parece que essa frase está intrinsecamente estampada no feed, na rua, no céu. Em tudo.

A produção do disco foi contemplada pela Lei Aldir Blanc em parceria com o Ministério da Cultura e a Secretaria da Cultura da cidade de Sorocaba (SECULT).

Além da ótima escolha de título para o álbum (que prazer ver os títulos longos voltando), a banda foi impecável em todos os outros aspectos que marcam um bom álbum. Um bom álbum que é bom dentro do seu próprio critério. Um disco que é bom por si só.

No que diz respeito à sonoridade, tem tudo o que já deu para perceber que é marca registrada da Crise: guitarras distorcidas, letras retóricas e reflexivas. Um ambiente denso, complexo. E que te faz ficar preso nele, por se identificar tanto. 

A jornada que o disco que te leva é, simultaneamente, confortável e desconfortável. Confortável por oras trazer de volta as sensações que mais fazem você se sentir você mesmo. Desconfortável por saber que muitas dessas mesmas sensações estarem no passado. 

Algumas faixas possuem aquele tipo de letra que quando você as ouve, pensa na hora: Caramba, é isso. “Já me acostumei com o enjoo, de engolir tanto medo”, passagem de Quanto Tempo.

Outras são mais puxadas para o experimentalismo, como é o caso de Elefante. A dose de complexidade que deixa o disco ainda mais interessante. Nesse ponto, já me via deitada na cama, olhando para o teto, prestando atenção em tudo.

O disco segue com Ofensa, com suas texturas oníricas que refletem muito bem como um pensamento ansioso pode se formar na cabeça da gente.

Tudo não poderia terminar da melhor forma com Quixote. Uma faixa que sintetiza bem o que a Crise traz no som (teria como o nome da banda ser melhor?). Para mim, pareceu aquela sensação que fica depois de uma crise terminar, depois de o pior ter passado, um misto de cansaço, alívio, autopiedade, conformismo e tristeza.

Para saber mais sobre a banda, recomendo ouvir ao nosso episódio do podcast que gravamos com eles: https://open.spotify.com/episode/1Mw2Hta4DVPOp2OgBBBBLk?si=3TX7thXUQcaDi8OgYdXRcQ 

Ouça ao disco nas plataformas digitais.

Ficha Técnica:

  • Lançado em: 30 de março de 2026
  • 8 Títulos | 40m 03s
  • Produção: Phelippe Afonso e Arizer4
  • Gravação: Jader Finamore
  • Mixagem e engenharia de som: Ítalo Ribeiro
  • Masterização: Pêu Ribeiro
  • Capa: Cristine Siqueira

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